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sexta-feira, 24 de maio de 2013

Mesa Redonda sobre a RETIRADA DE GUILEJE


Realizou-se no dia 23 de Maio de 2013 na Casa Municipal da Cultura em Coimbra,  a Mesa Redonda “GUIDAJE (Cumbamori), GUILEJE, GADAMAEL 40 ANOS DOS 3 G’s DA GUERRA NA GUINÉ”. Com a autorização do autor, tomo a liberdade de transcrever um pequeno texto sobre “A RETIRADA DE GUILEJE”

A RETIRADA DE GUILEJE
Brevíssimo Resumo

Em 4 SET 72, com o Posto de Major, iniciei a 3ª Comissão por imposição, na GUINÉ.
Em 8 JAN 73 fui nomeado, pelo Sr. Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné, Sr. General ANTÓNIO DE SPÍNOLA, Comandante do Comando Operacional nº 5 8COP 5), com sede em GUILEJE. Na Zona de Ação do COP 5 passava o “Corredor de GUILEJE”, através do qual o PAIGC introduzia 70 a 80% dos abastecimentos (armas, munições e outros), para todo o território da GUINÉ.
Em 25 MAR 73, foi abatido na região de GUILEJE, o 1º Avião a jacto FIAT G - 91, atingido por um míssil terra-ar STRELA: o Piloto recuperado com um pé partido. O aparecimento destes mísseis provocou grandes alterações e limitações no emprego da nossa Força Aérea.
Em 18 MAI 73 pelas 07:00 horas, 2 Grupos de Combate e 1 Pelotão de Milícia, saídos de GUILEJE, foram emboscados por um grupo Inimigo (IN) estimado em 100 elementos; as Nossas Tropas (NT) sofreram 1 Morto, 7 Feridos graves (um dos quais veio a falecer 4 horas mais tarde por falta de evacuação) e 4 Feridos ligeiros. Em 11 MAI 73, o Sr. General SPÍNOLA, na sua última visita a GUILEJE, afirmara, perante formatura geral de todos os militares que, não obstante os condicionamentos de actuação da Força Aérea, esta faria a evacuação dos feridos graves; esta promessa não foi cumprida.
Face à situação, solicitei a ida a GUILEJE de Delegados da Repartição de Operações e da Força Aérea; porque estes não apareceram, desloquei-me no dia seguinte (19 MAI) a CACINE, comandando a evacuação de baixas da emboscada, através do rio; esperava lá encontrar os Delegados referidos. No dia 20 MAI, ao fim da tarde, fui transportado de helicóptero a BISSAU, onde apresentei ao Sr. General SPÍNOLA, a necessidade de reforços, já solicitada antes por mensagem; respondeu-me que não me dava qualquer reforço. que devia regressar na manhã seguinte a GUILEJE e que ia mandar para lá o Sr. Coronel Paraquedista RAFAEL DURÃO, passando eu a 2º Comandante.
Cheguei a GUILEJE ao fim do dia 21 MAI, depois me ter deslocado de sintex (barco com motor fora de borda) de CACINE (onde a Força Aérea me deixou) para GADAMAEL; o percurso de GADAMAEL para GUILEJE foi feito em coluna apeada, utilizando um trilho da população; durante o trajecto, ouvimos a flagelação que GUILEJE estava a sofrer, a mais violenta de todas, que provocou a morte de um Furriel Miliciano e vários estragos materiais, entre os quais a destruição total do Centro de Comunicações, incluindo as antenas, o que impedia a ligação rádio com qualquer entidade.
Face à forte pressão do IN, à não atribuição de reforços e a outros factores (falta de água no quartel, escassez de munições de Artilharia, não evacuação de feridos, etc.), decidi retirar para GADAMAEL, no dia seguinte ao romper do dia, todos os militares (cerca de 200) e toda a população (cerca de 500 elementos), por considerar a posição insustentável. A alternativa era aguardar a chegada do Sr. Coronel DURÃO, que eu não sabia quando se iria verificar e que, em minha opinião, não resolveria a situação, porque, seguramente, não viria acompanhado de reforços, nem tão pouco tinha condições para solucionar os factores atrás referidos e, principalmente, a forte pressão do IN, que era cada vez mais acentuada.
Desde as 20:00 horas do dia 18 MAI até às 4:00 horas do dia 22 MAI (80 horas), GUILEJE sofreu 37 flagelações. A retirada efectuou-se, em coluna apeada, com pleno êxito, tendo surpreendido totalmente o IN, que continuou a bombardear GUILEJE, onde só entrou em 25 MAI 73.
O Sr. General SPÍNOLA não sancionou a decisão, ordenando a minha prisão preventiva e a instauração de um Auto de Corpo de Delito; estive preso, em BISSAU, desde 27 MAI 73 até 12 MAI 74. Como consequência do 25 ABR 74, os “crimes” que supostamente me eram imputados, foram amnistiados por Decreto-Lei da Junta de Salvação Nacional e o processo foi arquivado.
Os factos descritos são relatados, no livro que agora foi publicado; o processo é, também, analisado e criticado, com pormenor; a última parte do livro trata do Simpósio Internacional de GUILEJE, realizado em BISSAU, de 1 a 6 de Março de 2008, em que participei.
O livro “A RETIRADA DE GUILEJE” não está à venda nas livrarias, estou disponível para o enviar, pelo correio, para qualquer parte do mundo. Os meus contactos são:

- Rua Tomás Figueiredo, Nº 2 – 2º ESQ. – 1500 – 599 LISBOA
- Telefone: 217608243
- Telemóvel: 917931226
- Email: icoutinholima@gmail.com

O Autor
Alexandre da Costa Coutinho e Lima (Coronel de Artª)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O INIMIGO SEM ROSTO


A partir de meados do séc. XIX, o recurso a “campos minados” constituiu um meio de combate em quase todos os conflitos entre os povos.

Mais de 400 milhões de minas foram implantadas desde o início da II Guerra Mundial, afectando várias regiões. 



A cada 20 minutos, em algum lugar do mundo, explode uma mina terrestre e fere pelo menos uma pessoa. As minas têm um efeito devastador no moral dos combatentes, caracterizam-se por serem o “inimigo invisível ou o inimigo sem rosto”, não distinguem entre opositores armados e civis inocentes. Quando não matam provocam a agonia dos atingidos... são concebidas essencialmente para limitar a acção e o avanço do inimigo.

Foram as minas que fizeram abortar a “missão” de que trata o presente texto.
Segundo alguns estudiosos, em Maio de 1973, em Guidaje (Guiné), as forças armadas portuguesas foram submetidas à prova mais dura dos três teatros de operações da guerra colonial.

Guidaje chegou a estar isolada durante alguns dias devido ao uso intenso, prolongado e sem restrições, por parte do PAIGC, de armamento pesado de longo alcance e elevado poder de fogo, designadamente foguetões de 122mm e morteiros. Esta actividade do PAIGC alcançou valores que são considerados os mais altos de sempre desde o início da guerra – 220 acções durante o mês, o mesmo sucedendo em relação a baixas causadas às tropas portuguesas – 63 mortos e 269 feridos.

O Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 4 (DFE 4), que tive a honra de comandar, em missão de serviço na Guiné (1973/74) foi protagonista conjuntamente com elementos do DFE 1, em Maio de 1973, de uma acção (sem apoio aéreo e sem possibilidade de evacuação) de proteção próxima a uma coluna de reabastecimento do Exército a Guidaje e cujo desfecho pretendo partilhar convosco.

Para o efeito, passo a transcrever o texto, em tempos, solicitado por um nosso camarada, que também viveu a guerra naquele teatro de operações, destinado a divulgação num “blog”:

Caro amigo
Respondendo ao teu e-mail…

A minha passagem pela Guiné (1973/74) comandando o DFE 4 foi uma etapa da minha carreira militar bastante marcante e indelével. As diversas situações de perigo por que passámos jamais serão esquecidas, muito embora compreenda que quem as protagonizou, as tenha vivido de modos muito diferentes, uma vez que são emoções que variam conforme a sensibilidade de cada um.

Segundo a opinião de conceituados especialistas militares, a guerra levada a cabo na Guiné, pelas suas características, foi a mais difícil e perigosa que Portugal enfrentou em África.

Nós, os que escolhemos, por vocação, a carreira das armas, não nos podemos queixar face aos milhares de cidadãos que partiram compulsivamente para combater nas ex-colónias.

Reflectindo sobre a minha vida militar e pelos diversos cargos que ao longo da mesma fui chamado a desempenhar, confesso que o Comando do DFE 4 foi, de longe, o que mais me marcou.

Senti, de modo inequívoco, o peso da responsabilidade nas decisões a tomar e a noção das consequências que estas poderiam ter sobre a vida dos comandados.

Senti a aproximação, que presumo única, entre comandante e subordinado, alicerçada na camaradagem e na solidariedade; todos sofrem as mesmas carências e estão sujeitos a idêntico esforço físico perante o perigo comum.
Ao chefe acresce a decisão.
A acção responsável de comando, neste contexto, resulta naturalmente mais eficaz, melhor compreendida e respeitada pelos subordinados.

Sobre o que me solicitas, vou limitar-me a transcrever a parte do livro “Guiné 1968 e 1973” (pág. 82/84) do Cor. Nuno Mira Vaz com a qual me identifico, já que tive intervenção directa na tentativa do rompimento do cerco a Guidaje:

“ … Na manhã de 22 de Maio partiu de Binta para Guidaje nova coluna logística, com a missão de, na volta, evacuar os militares e os civis feridos que ali tinham vindo a acumular-se por impossibilidade de evacuação. O deslocamento dos feridos parecia finalmente possível, face aos resultados alcançados no decurso da operação Ametista Real, a qual, de acordo com prognósticos generalizados, teria provocado uma grande desorientação nas fileiras do inimigo. Conforme planeado, a CCP 121 encarregava-se da proteção próxima, a oeste da estrada Binta – Guidaje, cabendo a um Destacamento Misto de Fuzileiros (quarenta e dois elementos dos DFE´s nº 1 e nº 4), sob o comando do 1º tenente AN/FZE Albano Alves de Jesus, a protecção imediata, a leste. A responsabilidade pela picagem do troço de itinerário entre Binta e Genicó foi atribuída a um grupo de combate da Companhia de Caçadores nº 14, da guarnição de Farim; daí para a frente, a missão ficaria a cargo de um pelotão reduzido (treze elementos) da Companhia de Caçadores nº 3.

O deslocamento iniciou-se pelas sete horas e trinta minutos, tendo-se desenrolado sem incidentes até Genicó, embora em marcha lenta, justificada pela necessidade de se proceder a uma picagem cuidadosa do itinerário. Além disso, foi também necessário utilizar um desvio com cerca de mil metros de extensão, para contornar o local onde se encontravam completamente destruídas e calcinadas várias viaturas, testemunhas silenciosas da violência registada em anteriores tentativas de reabastecimento a Guidaje.

Transposto o desvio e percorridos menos de cem metros sobre o itinerário normal, um elemento da Companhia de Caçadores nº 3 accionou uma mina anti-pessoal, reforçada com uma mina anti-carro, que lhe causou morte imediata. A relutância com que os picadores vinham procedendo à picagem do itinerário, e que tem de se compreender face à sucessão de acontecimentos dramáticos ocorridos nas últimas semanas, tornou-se mais viva, forçando o 1º tenente Alves de Jesus e o Alferes Gomes Rebelo, da Companhia nº 3, a deslocarem-se para a testa da coluna, onde podiam acompanhar de perto a picagem – um dos trabalhos mais perigosos e desgastantes em qualquer acção terrestre.

Dez metros adiante, foi accionada outra mina. A explosão provocou a morte do picador, tendo além disso ferido com gravidade dois elementos e projectado pelo ar, embora sem consequências pessoais, ambos os oficiais e o radiotelegrafista da coluna.

Informado, em Guidaje, da ocorrência, o Tenente-coronel Correia de Campos deu instruções para que se retomasse a progressão logo que estivesse concluída a assistência aos feridos, se possível com maior celeridade e de preferência utilizando um desvio, uma vez que o itinerário normal aparentava estar abundantemente minado. Porém, no decurso do tratamento dos feridos, deflagrou nova mina, desta feita colocada fora do itinerário, que provocou mais um ferido muito grave. Durante o atendimento a este ferido, foi detectada mais uma mina na orla do itinerário, a qual não foi levantada por não existir na coluna pessoal habilitado para o efeito.
Atendendo ao desgaste sofrido pela coluna, foi decidido reforçá-la com um grupo de combate que saiu de Genicó e se lhe juntou cerca das 12H00. A disposição geral era de grande desalento, sendo especialmente preocupante a situação de um dos feridos, o qual perdia muito sangue por ter a perna esquerda decepada um pouco abaixo do joelho, além de ferimentos nos braços e no olho direito. Tendo reavaliado a situação, o comandante do COP 3 deu ordem para abortar o reabastecimento, pelo que a coluna regressou ao ponto de partida, que atingiu cerca das 17H45…”

O ferido muito grave atrás referido, com a perna decepada, após ter sido assistido em Bissau, foi evacuado para Lisboa para tratamento especializado e colocação de prótese. Voltei a encontrá-lo alguns anos mais tarde no Rossio (Lisboa). Já ia na 3ª prótese de adaptação e desempenhava actividade profissional num armazém.

Há situações na nossa vida que jamais se esquecem. Escrevo este texto como testemunho de uma época, ou melhor de um dia-a-dia sem espaço para a felicidade, que passei - que passámos - nessa comissão na Guiné. Ingrato seria não recordar quem me ajudou em momentos difíceis, nomeadamente os camaradas de curso Martins Soares (infelizmente já falecido), Vasco Lupi e Cortes Simões (Comandantes de LFG’s), os quais, excedendo o âmbito de missões que lhes estavam atribuídas, me prestaram um apoio sempre solidário e amigo. A eles presto sentida homenagem e manifesto agradecimentos sinceros.
Albano Alves de Jesus

sexta-feira, 25 de maio de 2012

CHISSOIA


(Relato verídico extraído do livro "Kinda", de Carlos Acabado, da colecção "Fim do Império" Nº3)

Quando a luz difusa que anuncia o amanhecer tropical começou a dar cor ao casario da cidade , havia já na marginal um movimento desusado. Ao fundo da avenida, frente ao porto, a praça fora engalanada com bandeiras e a tribuna erguida na véspera, recheada de cadeirões forrados a veludo vermelho, aguardava, imponente, a chegada das individualidades. Comemorava-se o dez de Junho e Portugal, de Camões e da raça, e os heróis iam ser solenemente exaltados.

Do alto do pedestal a estátua do navegador, erguida no centro do largo, olhava a baía a que os raios do sol nascente douravam já as águas tranquilas, como se aguardasse ainda a chegada das naus, deslizando suaves e silenciosas, como cisnes negros de asas brancas.

Nesse tempo, a população descia dos morros e barrocas sobranceiras á zona ribeirinha, esperando que os nautas varassem os botes na praia para o encontro dos mundos que "o mar já unia". Agora, a baía, que se recorta como um sensual dorso de mulher, foi pudicamente coberta com o manto verde das palmeiras da marginal, e na comunhão dos mundos só as naus estão ausentes. Portugal e o mar ali estavam , marcando presença perante uma população que, a pouco e pouco, tomou a cor da mestiçagem de sangue e vivência, deixando perplexo, quem se interrogasse, de que raça se iriam enaltecer as virtudes naquele dia!

A praça fora enchendo. As cadeiras da tribuna tinham sido ocupadas e um general, em voz monocórdica e enrouquecida, lia o discurso onde salientava que quinhentos anos de esforço, e querer, uniam o herói que, ali imortalizado em pedra, olhava absorto o oceano sem fim, aos heróis de hoje que, frente á tribuna, aguardavam o agradecimento da Pátria reconhecida.

Perfilado, com a dignidade de um bem-nascido, altivo no camuflado verde, o Chissoia aguardou o chamamento e a leitura do louvor em que era descrito o seu acto de bravura. Subiu os degraus da tribuna e, como se fosse talhado em ébano, sem mover um músculo, abriu o peito largo onde o general, quase em bicos dos pés, lhe colocou uma cruz de guerra, dizendo-lhe em voz baixa que Portugal sentia orgulho por ter filhos como ele. Regressou ao lugar na fila dos heróis e, erecto, assistiu ao desfile de estandartes dos batalhões espalhados pelos confins do território, à passagem do corpo de fuzileiros, do regimento de comandos, dos flechas e dos leões de Cabinda, que em marcha acelerada entoavam canções guerreiras. A cavalaria fechou o desfile a galope curto, com garbo e tradição.

Era impressionante a portugalidade que se respirava e as gentes, de todas as cores, que tinham emoldurado a praça, ao dispersarem derramavam na cidade a confiança inabalável no Portugal granítico e multirracial que, naquela manhã, tinha estado presente naquele largo, frente ao porto.

Quando conheci o Chissoia era ele já um veterano de guerra, não que fosse velho, pelo contrário, apenas começara cedo e aprendera depressa. Parece que desde pequeno acompanhava o pai como pisteiro de elefantes. O Lucusse, onde nascera, era uma zona de passagem dos paquidermes que, nos seus itinerários até ao rio Lungué-bungo, muitas vezes destruíam o trabalho de meses no arranjo das lavras. Entre os animais e os aldeões travava-se uma luta pela sobrevivência, em que nem sempre eram os humanos os vencedores. Era assim natural que os caçadores , convidados pelo governador do distrito ou pelos homens importantes da província, fossem vistos com agrado pelas populações, pois além de abaterem alguns animais, afugentando por algum tempo as manadas, deixavam toneladas de carne que, mesmo dura e fibrosa, o soba e o velho Chissoia ficavam encarregados de distribuir. Aos brancos só os dentes interessavam, e o velho pisteiro aguardava que os crânios enterrados apodrecessem para lhes retirar as presas que, numa próxima visita, entregava já limpas de medula.

Foi nessa época que os Chissoias, pai e filho, se tornaram amigos de gente importante. O profundo conhecimento das matas e a perícia em seguir e interpretar trilhos como quem lê um livro, aliados à camaradagem que a aventura comum proporciona, permitiu-lhes sentarem-se, conversar e comer lado a lado com os grandes da terra que, amiúde, os presenteavam como prova de reconhecimento. O prestígio do velho Chissoia era grande perante as populações, não só dos povoados próximos, como de toda a região.

Corriam tranquílos os primeiros anos da década de sessenta. A luta que se ateara no norte do território não tinha chegado ainda às planícies sem fim do leste. As matas eram seguras e, logo pela manhã, as mulheres seguiam em fila e sem receios, para as lavras onde recolhiam lenha e mandioca para o sustento da prole.

Uma madrugada apareceu no Lucusse um grupo de gente estranha à região. Vinha armada e queria falar com o soba. Depois de uma longa conversa, e perante a atitude de incompreensão e até de alguma hostilidade, o chefe do grupo resolveu utilizar um meio de persuasão mais eficaz e, perante a população aterrorizada, fuzilou o soba por ser um chefe corrupto e o velho Chissoia por ser lacaio dos colonialistas. O filho fugiu para a mata e, passados dias, chegou à capital do distrito, onde contou o sucedido. Acompanhou depois a força militar que foi enviada para a zona e seguiu, até ao fim, a pista de rastos humanos como o pai lhe ensinara a seguir a dos elefentes.

A partir dessa época ficou ligado ao destacamento militar que foi aquartelado na povoação. O seu conselho e actuação foram sendo cada vez mais imprescindíveis, acabando por ser integrado nas forças irregulares, chefiando um grupo de homens escolhidos por si e com relativa autonomia.

Quando a luta de defesa do território foi alargada ao leste para suster a tentativa do inimigo de alcançar o planalto central por essa via, a táctica das nossas forças teve que se adaptar ao terreno plano e com grandes extensões pouco povoadas. A Força Aérea iniciou então uma colaboração íntima nas operações terrestres, proporcionando uma maior mobilidade através de helicópteros e aviões ligeiros. Foi nessa época que conheci o Chissoia, e muitas horas passadas em amena conversa, junto das fogueiras que aqueciam as noites frias das savanas de leste, caldearam a amizade e a admiração que desde então sentia por ele.

Uma tarde, quando o crepúsculo já anunciava a noite que cairia breve, perto do lago Dilolo, quando o seu grupo dava protecção a um movimento das nossas tropas, houve uma emboscada e dois soldados feridos jaziam no chão dentro do campo de tiro do inimigo, que continuava a alvejá-los. Passado o primeiro momento de surpresa, o Chissoia levantou-se e, a descoberto, com a arma ao quadril, fazendo fogo para se proteger, foi buscar um e, depois, o outro, arrastando-os para lugar mais seguro.

Foi por esse acto de bravura que o Chissoia esteve presente naquele dez de Junho, em que o general se esticou para lhe pendurar a condecoração na farda honrada e que, passados tantos anos, algures num recanto de Portugal, dois homens de meia idade podem recordar, em reuniões de família, como uma vez, quando estavam no Ultramar, um preto lhes salvou a vida.

O ano de setenta e quatro decorreu convulso! A esperança inicial, transmitida pelos novos políticos no poder, em vez de tranquilizadora e bem colocada, parecendo ter a percepção da complexidade dos problemas a enfentar, fora substituída por dúvidas cada vez mais angustiantes. As cidades tinham acolhido com palmas os guerrilheiros vindos das matas, aplaudindo-os como actores inesperados, num final de acto antecipado e improvisado, mas antes do fim do ano muitas das mais importantes povoações eram já palco de lutas entre os diversos movimentos , com recurso a armas pesadas, que destruiam tudo o que fora construído com sacrifício e amor.

As Forças Armadas portuguesas, desviadas dos seus objectivos e da sua missão, assistiam a tudo como espectadoras, ocupando, salvo raras excepções, um lugar pouco digno.

A partir do meio do ano setenta e quatro, começaram a chegar a Lisboa os soldados do fim da era imperial. Traziam estampada no rosto, na farda e na mente, a parte negativa da revolução.

A população civil começara há muito a sair face à insegurança em que se passou a viver , e muitos de nós, militares, habitávamos as casas vazias onde tínhamos vivido com as famílias, aguardando o fim da missão.

Uma noite ouvi um bater tímido de palmas no quintal da casa que ainda ocupava. Quando abri a porta, o Chissoia e a família estavam à minha frente.

"Preciso de ajuda!" atirou, quase envergonhado.

"Entrem e sentem-se por aí", disse, apontando os caixotes onde embalava o que queria levar de regresso a Lisboa. "Cadeiras já não há!", conclui.

A mulher e os filhos acocoraram-se, silenciosos, junto à parede da sala. Eu e ele sentámo-nos frente as frente, como sempre tínhamos feito, cada um em seu caixote.

"Estamos abandonados!", começou "Três dos meus homens foram detidos por um dos movimentos de libertação, e foram mortos..."


"Não pode ser", interrompi "Vocês terão que ser protegidos nos acordos que se fizeram" afirmei, procurando eu próprio dar convicção ao que dizia. 


"As patrulhas deles procuram-nos sem que alguém nos dê protecção!..."

"Isso não faz sentido! A responsabilidade aqui ainda é nossa... o comandante do batalhão é a autoridade!", exclamei indignado. 

"Fui ao comando militar hoje à tarde. Um tenente de barbas, que parece ter chegado há pouco tempo, disse-me uma coisa que me deixou sem dúvidas..."

"O que foi?", perguntei. 

"Quando soube o meu nome, perguntou o que é que eu esperava que acontecesse aos lacaios e traidores do povo...". As lágrimas dançavam-lhe nos olhos sem cair, como se a raiva e o orgulho as segurassem. "Isso foi o que disseram ao meu pai em Lucusse antes de o fuzilarem...", e num desabafo murmurou "Só que esses eram negros... um tenente branco não me pode dizer isso... porque aqui o traidor é ele... eu fui condecorado, o general disse-me que tinha orgulho de mim, de um português como eu... quando esse homem souber o que me disseram..."

Olhei-o cheio de amargura, sem ter a coragem de lhe dizer que esse general assumira agora outras funções e que ele, Chissoia, era uma ligeira sombra na sua memória, nas suas preocupações... talvez na sua consciência. 

Desceu sobre nós um silêncio pesado e trágico. Olhávamo-nos mudos. Os caixotes em que nos sentávamos e a casa vazia que nos albergava pareciam ser tudo o que restava do mundo em que até aí tinhamos vivido. 

Subitamente, a filha mais nova, com os cinco anos a reluzirem-lhe na face risonha, levantou-se e, sem quebrar o silêncio, foi apanhar do chão uma boneca de cabelos loiros que uma das minhas filhas tinha deixado para ser enviada nos caixotes. Voltou a acocorar-se junto à mãe com a boneca nos braços, cantando-lhe baixinho uma canção de embalar, que certamente aprendera com as mães negras do bairro onde vivia. 

A pouco e pouco a força telúrica da melodia, quase murmurada, foi aquecendo o silêncio, enchendo-o da energia profunda da África eterna, renascida das cinzas, verdejante depois das queimadas. A alma foi-se-nos erguendo como se a canção fosse um hino que nos devolvia o ânimo e, em silêncio, ambos procurávamos já a solução que todos os problemas têm. 

"Eu posso arranjar passagens para Luanda no avião de amanhã" alvitrei, buscando saída. 

"Luanda não é o meu povo. Só lá fui uma vez..." referia-se à data da condecoração "Lá ficamos ainda mais desprotegidos". 

"Posso tentar que vão para Portugal, mas, pelo que sei, não vai ser fácil nem rápido", disse, recordando as notícias que nos chegavam pelas tripulações. 

"O mais dificil é sair daqui com a família. Com eles não consigo passar sem ser visto". 

"Mas sair para onde?", perguntei, sem vislumbrar a solução. 

"Tenho gente na mata, que me mandou recado. Há movimentos que não se importam de nos aceitar. Precisam de homens com experiência para as guerras que vão chegar."

"Que posso fazer?", interroguei com desalento, pensando no papel que teríamos ainda que representar na tragédia que se vislumbrava já no horizonte. 

"Aquela pista que uma vez abrimos para utilizar só em operações especiais, continua boa e abandonada...", sugeriu a medo, consciente do que pedia "Podemos ser postos lá?..."

Eu tinha presente a localização da pista. Fora aberta na orla de uma mata, longe de povoações, apenas para ser utilizada em operações que se desenrolassem perto da fronteira. 

"Já mandei os meus homens sair da cidade, só ficaram duas mulheres, eu e a minha família; se nos puder ajudar..."

Sabia o risco que corria ao dizer-lhe que sim. A zona já fora evacuada pela nossa tropa e, ainda que isolada, poderia andar perto algum grupo que não hesitaria em abrir fogo se nos visse aterrar. 

Pela minha memória passou aquela madrugada em que tinham chegado ao acampamento os dois soldados feridos, mas salvos pelo Chissoia. 

O Portugal que eu era devia um sacrifício, um acto de gratidão, ao Portugal que ele, Chissoia, deixara já de ser. 

Dormiram essa noite na minha casa depois de ter ido buscar, furtivamente, as duas mulheres e mais duas crianças, evitando as patrulhas que circulavam pelas ruas desertas da cidade. De manhã, muito cedo, meti-os no jeep que ainda me estava distribuído, e dirigi-me à base onde tinha o avião para regressar a Luanda logo que a minha missão ali estivesse cumprida. 

Desloquei e tomei o rumo da pista que nos aguardava na mata. Daí ao Lucusse seriam uns dias de caminho árduo, mas era preferível percorrê-lo a serem abatidos como traidores. 

A faixa deserta estava mergulhada no silêncio hostil das coisas abandonadas. Tudo estava agora vazio, dominado pela mata que parecia querer recuperar para si a pista, como cicatrizando uma ferida aberta. Aterrei e, para não parar o motor, mantinha-o a baixas rotações. O hélice provocava um som triste de chicotadas que, repercutindo-se de árvora em árvore, ia morrer nos confins da floresta. 

O Chissoia ajudou a família a descer rapidamente do avião, conhecendo perfeitamente o perigo que todos corríamos se, por acaso, um grupo dos novos senhores da guerra nos surpreendesse. Ao sair colocou-me, num gesto mudo, a mão sobre o ombro, dizendo assim tudo o que nem eu nem ele tínhamos coragem para dizer. Depois, caminhou apressado à frente do seu pessoal em direcção à mata. As mulheres e os filhos seguiam-no em fila indiana. Não teve mais um olhar, mantinha o porte altivo e digno que sempre lhe conheci. Um a um, vi-os desaparecer entre as árvores, como se a floresta os engulisse. Só a mais pequena, a última da fila, se deteve um instante e, voltando-se, com a boneca de cabelos loiros na mão, fez-me adeus e sorriu, num gesto puro de quem não sabe que se despede para sempre. 

Fiquei a olhar o sítio onde desapareceram, aguentando a solidão imensa que me gelava a alma. Quantas traições, quantos abandonos e deslealdades serão necessários para erguer e desfazer um Império? Em quantas praias desertas teremos deixado companheiros? Em quantas matas teremos abandonado gente que em nós confiou? Quantas vezes desertámos das responsabilidades que assumimos? Quantas vezes traímos? 

Descolei e, já no ar, dei por mim a pedir a Deus protecção para o camarada perdido. 

No dia seguinte, o mecânico que passou inspecção ao avião, entregou-me uma medalha de Cruz de Guerra que encontrou caída no chão, junto ao banco em que o Chissoia se sentara.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

UM DIA DE EMOÇÕES...



16 de Março de 1974

“... ouve-se um estampido semelhante ao disparo de uma arma ligeira, seguido de gritos. FP alarmado, aponta para a minha coxa esquerda, onde no camuflado surge uma mancha de sangue.”


Hoje é – espero – o meu último dia, ao fim de um ano, no Chugué, um buraco ignoto na Guiné (Bissau). A montante do rio Cubijã, no limite até onde as lanchas de desembarque podem navegar.


Por ter sido promovido a Capitão-tenente, vou ser rendido.


Dentro de horas entrego o comando do Destacamento de Fuzileiros Especiais ao Oficial Imediato e regresso a Lisboa.
Levanto-me bem disposto. Capricho no barbear, duas passagens, pele “à cú de menino” (como dizia o Pedro Nunes, sargento-enfermeiro da “Sagres”). Visto nas calmas um fato de combate lavado e preparo-me para receber o camarada FP, o oficial nomeado pelo Comando da Defesa Marítima para o representar na cerimónia de “entrega de comando”. Veio de avião de Bissau para Cufar, local a jusante com uma pequena pista de aviação e instalações do Exército e, para o transportar para aqui numa viagem de cerca de quarenta e cinco minutos pelos meandros do rio, destaquei cinco botes de borracha com pessoal e armamento.



FP chega e é recebido cordialmente.
Habituado às comodidades de Bissau, alimentação regular e ar condicionado, longe da presença do inimigo, mostra sinais de intranquilidade e expressa o desejo de que a cerimónia decorra com brevidade, para que possa regressar rapidamente.

Dirigimo-nos para uma “parada” onde em tempos mandei enterrar na vertical um tronco aparado com uma adriça para içar a Bandeira Nacional. Fica situada em frente ao barracão central construído com chapas de zinco. O Destacamento aguarda-nos em formatura. Despeço-me de cada um dos homens com um abraço. Momento bem sentido esse, marcado pelas imagens dos bons e maus momentos vividos em conjunto. Por vezes, lágrimas mal contidas jorram soltas. O isolamento, o perigo, as provações, são a amálgama que robustece o cimento da camaradagem que perdurará para sempre.

Despedida consumada, há que meter os botes na água e rumar quanto antes a Cufar, sabido que é prática corrente o inimigo atacar ao fim da tarde com foguetões de 122 mm. A viagem decorre com apreensão mas sem incidentes. Olhando para a esteira de espuma branca que os botes de borracha provocam no rio, ocorre-me voltar para trás e reunir-me de novo àqueles homens que comigo partilharam as vicissitudes da guerra no último ano. Uma onda de culpa assalta o meu espírito, eles eram a minha família!
Chegados a Cufar, FP já menos tenso e eu, sentados num banco, a aguardar o transporte para Bissau, observamos a curta distância, a actividade de um pelotão de tropa indígena, uns de pé, outros sentados no chão de terra batida, que fazem vistoria ao armamento.

Eis senão quando, troa um estampido semelhante ao disparo de uma arma ligeira, seguido de gritos. FP alarmado, aponta para a minha coxa esquerda, onde no camuflado surge uma mancha de sangue. Baixo de imediato as calças. Com alívio, constato não estar ferido.

Junto ao banco, no chão, jaz um polegar sangrento. Um dos soldados negros contorce-se com dores.

Ele desenroscara o dispositivo central de uma granada defensiva, retirando o detonador e apenas este deflagrara, amputando-lhe um dedo. Tivesse a granada rebentado e decerto o nosso destino seria diferente, bem como o de outros homens ali estacionados.

O avião chega e nós embarcamos. Viajamos calados.

Revejo, como num filme, tudo o que se passou durante o ano que ali estive.

O insólito do acontecido no momento da partida, a iminência de desastre, a coincidência de ter sido eu o atingido por um fragmento humano. Penso no acaso, nos acontecimentos que nos surpreendem sem que deles sejamos cúmplices. No jogo da fortuna e do azar, a única coisa certa é que nenhum de nós pode compreendê-lo ou controlá-lo.

Penso na insustentável leveza do ser.

Alves de Jesus

domingo, 21 de setembro de 2008

PERSONAGEM


Recebido, por correio electrónico, do Sarg. H FZE Joaquim Pereira Caneira, que esteve em GUIDAJE (Guiné Bissau) com o DFE 4, quando do isolamento daquela guarnição militar por parte das Forças do PAIGC e cujo relato aqui divulgado, através de uma entrevista que concedeu à revista "Desembarque", em muito contribui para o esclarecimento e clarificação das inúmeras incorrecções e omissões, que vêm circulando na imprensa escrita nas últimas décadas.


Devemos, antes de mais, confessar que, quando decidimos avançar 
para este iniciativa, desconhecíamos, quase por completo, a pessoa que iríamos abordar, apenas algumas vagas referências sobre a relevância dos serviços que havia prestado na Guiné, bem como a sua grande coragem e competência. Combinámos o encontro, para as proximidades da vila de Ansião, onde, debaixo da sombra de uma nogueira que existe junto à casa de campo do signatário, decorreu a nossa conversa. Após as apresentações, sentámo-nos à mesa de cimento para um improvisado mas bem apaladado almoço, na companhia de mais alguns Fuzileiros e, no decurso do mesmo, falou-se, obviamente, da guerra e dos diversos episódios relacionados com os Fuzos.
O nosso imaginário estatelou-se, de imediato, no aquartelamento de Guidaje e nas matas e bolanhas circundantes, tendo como pano de fundo o tenebroso cenário dos ataques sanguinários, dos mortos e feridos, da dor e do sofrimento.
Ficámos absolutamente horrorizados e fascinados com as descrições feitas pelo nosso “personagem”, que com a sua destreza, sangue frio e extraordinários conhecimentos na área da saúde, constituía a única réstia de esperança e força anímica, para quantos por ali lutavam desesperadamente pela sobrevivência e por um pouco de dignidade, quer fossem Fuzileiros, militares de outros ramos ou população indígena.

Este ilustre Enfermeiro, JOAQUIM PEREIRA CANEIRA, nasceu em 1945, em Glória do Ribatejo – Salvaterra de Magos.
Alistou-se na Armada, como 2º Grumete voluntário, em 01 de Abril de 1963. Dois anos depois, foi promovido a Marinheiro, na classe de Manobra. No período de 1968 a 1971 frequentou e concluiu o curso de Enfermagem Geral, obtendo a promoção a 2º Sargento, desta especialidade, em Junho de 1971.
De Abril a Setembro, do ano de 1972, frequentou o 28º curso de Fuzileiros Especiais, que concluiu com aproveitamento e louvor, tendo sido agraciado, no final, com o prémio “Manuel Correia Gomes”, que se destinava a premiar o sargento ou praça que obtivesse a melhor classificação.
Em Novembro de 1972, é nomeado para uma comissão de serviço na Guiné, integrando o Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 4, onde chega em Abril de 1973. Regressou à Metrópole em Outubro de 1974, a bordo do NRP S. Gabriel.

Em Julho de 1976, é-lhe concedida baixa do serviço da Marinha, passando à situação de reserva Ab.
A partir desta altura, começou a desenvolver a sua actividade profissional de Enfermeiro, nos Hospitais da Universidade de Coimbra. Foi professor de enfermagem durante 14 anos, na Escola Superior de Enfermagem Dr. Ângelo da Fonseca, em Coimbra e, em 2001, passou à situação de aposentado da função pública. Actualmente, exerce ainda actividade, como professor de enfermagem, na Escola Superior de Saúde Jean Piaget, em Viseu.

Para “O Desembarque” constitui uma honra e um privilégio, levar ao conhecimento dos leitores as acções altamente meritórias, que nos enchem de prestígio e de orgulho, de um virtuoso camarada de armas que, não obstante os sucessos alcançados ao longo da vida, se sente muito honrado e orgulhoso por pertencer à grande família dos Fuzileiros, que considera homens extraordinários, corajosos e destemidos, para os quais o país tem grande dívida de gratidão.

DESEMBARQUE: Caro “Filho da Escola”, depois desse brilhante e excitante percurso de vida, ainda te recordas daquelas estranhas sensações que de ti se apoderaram quando chegastes à Guiné?

J. P. CANEIRA: Claro que recordo! … Ao chegar à Guiné, fui invadido por um turbilhão de sentimentos de angústia, insegurança e até mesmo medo, face aos relatos que ouvia relativamente ao que se passava nos teatros de guerra daquela Província. Contudo, a realidade do que vi e vivi foi muito mais dramática que aquela que a minha imaginação concebeu. Na verdade, por mais que nos esforcemos por relatar objectivamente o que sofremos, ao longo dos inesgotáveis meses de guerra, será difícil, para quem nos ouve, avaliar em absoluto o quanto padecemos. O sofrimento físico foi muito intenso, mas o psicológico foi atroz. Assistir ao desaparecimento de vidas humanas a todo o momento, lutar para salvar a vida dos que ficavam gravemente feridos, tendo consciência de que todo o esforço desenvolvido resultava, em muitas circunstâncias, apenas no adiamento da sua morte por algumas horas, destrói qualquer ser humano.

DESEMBARQUE: Já nos apercebemos da tua visão profundamente humana, tranquilizadora e encorajadora, sendo que a tua acção empenhada e corajosa era, para muitos, a única e ultima esperança que lhes restava. Tinhas bem a consciência desse teu papel e agias sempre em função desses valores, desses elevados princípios éticos e morais?

J. P. CANEIRA: Hoje, passados 35 anos, quando reflicto sobre a minha missão como enfermeiro, invade-me um sentimento de grande tristeza e, simultaneamente, de grande alívio, porque tenho a consciência de que fiz tudo o que me era possível fazer, sendo certo que nunca, em momento algum, deixei de socorrer alguém por medo ou com receio de perder a minha vida. Na verdade, era eu que prestava assistência a todos os elementos das Forças Armadas, em Guidaje e Chugé. Fazia de médico, de enfermeiro e até de assistente social, porque tinha a noção, bem patente, de que, acima de tudo, era a minha pessoa a grande esperança de sobrevivência para toda aquela gente, incluindo os próprios nativos.

DESEMBARQUE: Consta até que foi o “Fuza” Caneira que, com refinada subtileza, conseguiu impor a regra sublime de que, fosse em que circunstância fosse, o corpo de um camarada, ferido ou morto, mesmo que se encontrasse desfeito, nunca era deixado ou abandonado no terreno, mas sim transportado para lugar onde a sua dignidade humana fosse minimamente preservada. É tudo isto verdade e confirmas esta situação?

J. P. CANEIRA: Sim, essa era a máxima de que os Fuzileiros não abdicavam! E, em grande parte, isso tem algum fundamento. Esforcei-me muito e inventei algumas estratégias para que assim acontecesse. Com efeito, passei por uma situação trágica que me chocou e comoveu profundamente. No dia 12 de Maio de 1973, em consequência de um cerco, feito pelo inimigo, ao aquartelamento de Guidaje, recebemos ordens para enquadrar uma coluna militar de reabastecimento que partiria de Binta para Guidaje, porquanto havia a informação de que um grupo operacional do PAIGC, bastante numeroso e bem armado, actuava naquela zona e já teria impedido a passagem de uma primeira coluna, resultando do confronto uma apreciável quantidade de mortos e feridos entre a tropa portuguesa. Tive então oportunidade de verificar, ao longo do itinerário, sinais evidentes e arrepiantes dos confrontos bélicos com as colunas anteriores, nomeadamente viaturas destruídas e corpos de soldados mortos, em combate, espalhados pelo chão. Estes corpos não foram resgatados por nós, como eu e todos os camaradas gostaríamos, porque havia a forte probabilidade de estarem armadilhados e da existência de minas nas proximidades dos cadáveres.
Na verdade, tive oportunidade de constatar, com tristeza, o sentimento generalizado dos militares, com o pavor estampado nos rostos mirrados, ao preferirem uma morte imediata em vez de ficarem gravemente feridos ou incapacitados. Era a preocupação mórbida de evitar o sofrimento, nem que fosse através da morte. Tudo isto eu tentava ultrapassar, dando alento e aconselhando força anímica, através de uma argumentação consoladora, mas muitas vezes com a consciência do vazio e da desesperança, procurando tão-somente um frágil conforto e um “animus” especial, que os levasse a encarar o sofrimento com mais leveza e suavidade.

DESEMBARQUE: Mas consta que chegastes mesmo a tomar medidas concretas para tornar possível um encaminhamento minimamente digno aos desgraçados que perdiam a vida?

J. P. CANEIRA: Sim, isso também é verdade. Recorri, muitas vezes à cera derretida, que obtinha das velas das Igrejas, para tapar todos os orifícios dos cadáveres, não só os do próprio corpo, como a boca, as narinas, ouvidos e ânus, como os provocados por balas ou estilhaços, na tentativa de retardar os maus cheiros e a putrefacção, prolongando a conservação dos corpos o mais tempo possível, tendo em vista um enterro mais digno e o eventual aparecimento de umas espécies de caixão ou simplesmente um lençol para os embrulhar debaixo da terra. Também fui eu que introduzi o método de lançar a cal em pó em redor dos cadáveres, com o mesmo propósito antes referido. Isto é, uma forma de preservação, com o sentido de, em algum momento, serem recuperados e não ficassem para sempre abandonados ou servissem de alimento aos abutres e outros animais carnívoros.
A propósito disto, fiquei recentemente comovido com a admiração dos familiares dos pára-quedistas mortos, que foram trasladados para Portugal, cujos corpos foram desenterrados na Guiné e se verificou a existência de cal a envolvê-los. Pois fui eu mesmo, com a intenção atrás referida, que procedi a tais operações. Ainda a propósito das medidas tomadas, passou-se um caso curioso e, não fora o bom senso do meu comandante, acabaria por me acarretar alguns dissabores. É que o Director dos Serviços de Saúde da Guiné chegou a questioná-lo sobre a utilização e destino dos medicamentos, suspeitando que o enfermeiro andasse a lucrar ou fazer contrabando dos mesmos, tal eram as quantidades extras requisitadas, quando, na verdade, eu apenas procurava, com eficiência comprovada, fazer face às enormes necessidades com que diariamente me deparava. De resto, nunca o meu Destacamento, em tempo algum, teve qualquer elemento de baixa, por doença, em Bissau. Disto tomou conhecimento o Director de Saúde, que ficou deveras surpreendido e bastante satisfeito, ao verificar as estatísticas em relação às demais Unidades.

DESEMBARQUE: Chegou ainda ao nosso conhecimento que também impusestes regras, suficientemente rigorosas, para a prevenção do paludismo?

J. P. CANEIRA: Sim, é verdade. Inventei e impus regras de procedimento, que todos deveriam observar, quanto à forma de tomar os comprimidos. Não só impunha regras como exercia permanente vigilância sobre esses comportamentos. O único indivíduo que não controlava, por razões de confiança, era o meu ajudante, o “Boticas” Andrade, e que, por isso, se desleixava e não os tomava. Como consequência, apanhou uma carga de tal ordem, que por pouco o não matou.

DESEMBARQUE: As circunstâncias em que exercestes a tua nobre e importante missão eram, como se constata, altamente difíceis, mas mesmo assim, o teu desempenho foi absolutamente extraordinário e determinante, sendo muitos os êxitos alcançados e uma reputação inigualável, reconhecida por todos quantos viviam ou sobreviviam naquela região. Achas que te eram garantidas as mínimas condições para trabalhar e que te era proporcionada alguma réstia de segurança?

J. P. CANEIRA: Ao chegarmos a Guidaje, deparamo-nos com um cenário tétrico. As instalações militares apresentavam-se todas esburacadas, algumas partes destruídas ou semi-arruinadas, revelando uma sensação de abandono, pois que, de início, não se vislumbrava vivalma. Os militares encontravam-se posicionados nos seus postos de vigia, próximos dos abrigos de protecção. Encontramo-los moralmente destroçados, fisicamente exaustos, desnutridos e com o sentimento de abandono pelas chefias militares. Os ataques eram constantes e de uma violência extrema, ouviam-se gritos de socorro por todos os lados e os mortos e feridos eram abundantes. Era uma desorientação total, um universo de trevas, que flagelava a nossa sensibilidade e nos fazia sentir impotentes.
A partir daqueles momentos, o meu posto de trabalho reconduzia-se à enfermaria a prestar cuidados aos feridos internados e os primeiros socorros aos que vinham sucessivamente chegando. Repousava por breves momentos, sentado num caixote, nunca me deitava para descansar ou dormir, mas também não tinha sono. Aparentemente, a enfermaria era a instalação mais segura do aquartelamento, dado que tinha uma cobertura, que se supunha de betão armado. Não sei se era resistente aos bombardeamentos porque, felizmente, nunca foi atingida, o que não deixa de ser curioso mas facilmente se compreende, é que para ali convergiam também os elementos da população feridos ou doentes e, sabe-se lá, muito provavelmente até alguns membros do inimigo.
Todos tínhamos a consciência de que a qualquer momento poderíamos morrer ou ficar feridos. Não havia qualquer abrigo absolutamente seguro. A enfermaria era, de facto, pelo menos na aparência, o reduto mais confiante.
No entanto, assim não o entenderam cinco furriéis do exército, que decidiram construir, para eles, um abrigo subterrâneo, coberto com várias camadas de troncos de árvores e terra. Após a construção, transferiram os seus beliches para lá, com a convicção de que a segurança ali era absoluta, tendo-me dito, com tranquilidade e confiança, na altura: “ “Fuza”, vamos finalmente dormir uma noite tranquila”! Cerca das onze horas da noite, despedem-se de mim, desejando-me felicidades. Passados alguns minutos, surge um ataque intenso e demolidor, cai uma granada de morteiro no abrigo, perfurando a cobertura, e explode no seu interior. Quatro deles tiveram morte imediata e o outro ficou gravemente ferido. Os cadáveres foram retirados dos escombros, por mim e pelo Tenente Pires de Moura. Era a crueldade do destino! … .

DESEMBARQUE: Tens mais algum episódio interessante que nos queiras descrever?

J. P. CANEIRA: Episódios impressionantes ocorriam quase todos os dias, pelo que, no meio de tantos, não é fácil distinguir o grau ou critério de avaliação, mas já que me pedem, vou resumidamente referir alguns:
O Comandante do aquartelamento de Guidaje, Tenente-coronel Correia de Campos, era um homem surpreendente. Creio que todos os militares nutriam grande admiração e respeito por ele. Nunca se abrigava quando surgiam os ataques, permanecendo calmo e sereno no local onde se encontrava. Observei-o várias vezes, de pé na parada, no decorrer de intensos bombardeamentos, segurando o seu “bengalim”, perscrutando o tenebroso cenário ao seu redor.
Em certo momento, o nosso Oficial Imediato, Tenente Pedro Menezes, e eu próprio, fomos chamados por ele, para nos informar que, uma vez que não tínhamos caixões para guardar os cadáveres, tinha decidido improvisar um cemitério, onde iriam ser enterrados os mortos, e que as sepulturas ficariam devidamente identificadas, tendo em vista um futuro resgate dos corpos, o que na verdade veio a acontecer.
Esta reunião teve lugar no seu gabinete, estando ele sentado na secretária e eu e o Ten. Menezes estávamos de pé, em frente dele. Surge, entretanto, um violento ataque, mas o comandante demonstrou ignorá-lo completamente, continuando a conversa connosco, como se nada estivesse a acontecer. Nós, mantivemo-nos firmes no nosso lugar, incapazes de obedecer aos instintos naturais de preservação. Recordo, todavia, que o meu batimento cardíaco era de tal modo intenso que se conseguia ouvir à distância.
A criação do cemitério em Guidaje, seguindo as sugestões por mim formuladas, foi uma solução de recurso racional, tendo em conta que os corpos dos soldados mortos entravam em decomposição em menos de 24 horas.
Tudo fizemos para adiar os enterros, com o propósito de os tornar mais dignos e humanizados, como antes já referi, mas, naquelas circunstâncias, era impossível fazer mais e melhor. Todos os corpos enterrados em Guidaje, foram previamente preparados por mim, entre eles os dos três pára-quedistas que morreram na zona do Cufeu, que recolhi num armazém, onde estiveram cerca de 24 horas.
Uma outra situação interessante, foi a que ocorreu quando, no dia 12 de Maio de 1973, recebemos ordens para enquadrar a coluna militar de reabastecimento, que passaria por locais fatídicos, onde sistematicamente ocorriam mortes e destruições de vária ordem, como na anterior havia acontecido.
Perante este quadro, os Fuzileiros apetrecharam-se com rigor, fazendo parte do armamento a módica quantidade de 18 metralhadoras MG-42. Não se verificou qualquer incidente. Saímos de Binta pelas 09,00 horas da manhã e chegamos a Guidaje por volta das 17,00 horas, perante a estupefacção e admiração dos militares do exército que se encontravam amedrontados no quartel.
A este propósito, o Ten. Coronel Correia de Campos fez o seguinte comentário: “Vocês não foram atacados. Eles são pretos mas não são parvos!”.
Logo após a chegada, não valorizamos tanto como devíamos o facto de o aquartelamento ser constantemente bombardeado e decidimos, antes de mais nada, tomar um reconfortante duche no chuveiro. Eu, como a maioria dos camaradas, dirigimo-nos à zona balneária, que também indiciava os efeitos das morteiradas. Despi-me e ensaboei-me, mas, nesse instante, surge um ataque intensíssimo de morteiros. O pânico foi geral e lançamo-nos em correria, todos nus, desorientados à procura de um abrigo. O problema é que ainda desconhecíamos onde eles se situavam, pelo que o Subten. Pires de Moura, com calma e serenidade, segurando-me por um braço, me disse para não me precipitar, porque não valia a pena correr ao acaso, enfrentando riscos desnecessários. Mantivemo-nos dentro dos balneários até obtermos a informação do melhor local de protecção.
Corremos então para uma vala e deitamo-nos dentro dela, enquanto as granadas de morteiro caiam incessantemente em nosso redor, com explosões ensurdecedoras, que mal deixavam ouvir os gritos desesperados de militares feridos a nosso lado.
Acabado o tiroteio, eu e o Ten. Pires de Moura levantamo-nos ilesos, mais parecendo dois croquetes, em virtude de nos termos atirados ensaboados para o buraco de barro vermelho. Apesar de tudo, tivemos sorte. A que faltou a dois soldados que lá se encontravam deitados, que já dormiam o sono eterno.
Na enfermaria, esperava-me uma imensidão de feridos, clamando desesperadamente por socorro.

DESEMBARQUE: Certamente que, pelo teu extraordinário desempenho, reconhecida competência e eficácia demonstrada, fostes alvo de louvores ou menções elogiosas.
Queres fazer alguma referência sobre este assunto?

J. P. CANEIRA: Sim, na verdade o trabalho que desenvolvi ao serviço dos Fuzileiros, foi objecto de diversas manifestações de reconhecimento. Desde logo, o prémio atribuído por ter sido o melhor classificado no curso de Fuzileiros Especiais. Mas também fui contemplado com algumas menções honrosas, de entre as quais destaco o louvor que me foi concedido, em Setembro de 1973, pelo meu Comandante, Albano Manuel Alves de Jesus, que fundamenta nas qualidades e aptidões demonstradas durante a guerra, dizendo que “o sargento Enfermeiro Caneira sempre se impôs como um excelente profissional, dotado de alto sentido do dever, inexcedível zelo e noção exacta da responsabilidade,” não só na actividade desenvolvida no âmbito do Destacamento mas também na prestação de serviços de saúde, quando da assistência pronta e eficiente aos diversos militares feridos, dos Comandos, Pára-quedistas e do Exército, bem como aos elementos da população. Conclui o louvor referindo que “a acção do Sarg. Caneira, na Guiné, foi excepcional e constituiu motivo de referências elogiosas por parte de superiores de outros ramos das Forças Armadas”.

DESEMBARQUE: Queres deixar mais alguma observação sobre esse período marcante e inesquecível da tua vida, ao serviço dos Fuzileiros?

J. P. CANEIRA: Muito mais teria certamente para dizer, mas já lá vão muitos anos e, como é natural, muitos pormenores, sobretudo no que respeita a datas, não estão muito presentes na minha memória.
Sinto, todavia, um enorme orgulho por pertencer à família dos Fuzos e recordo, com saudade, todos aqueles camaradas que fizeram parte do DFE 4. Foram, e são concerteza, homens extraordinários, corajosos e destemidos. O País tem uma grande dívida de gratidão para com os Fuzileiros.

DESEMBARQUE: A conversa já vai longa, mas, para terminar, o que te oferece dizer, muito resumidamente, da nossa Associação e deste nosso “Desembarque”?

J. P. CANEIRA: Acho que a criação da Associação de Fuzileiros foi uma iniciativa maravilhosa, congregadora de sentimentos e de orgulhos, que consubstanciam uma mística extraordinária, que acalenta, fortalece e rejuvenesce os Fuzos de diferentes gerações, que, com o indestrutível espírito audaz, embarca e se difunde pelo mundo, a bordo deste precioso veículo, que se chama “Desembarque”.
Ilídio Neves/Mário Manso

sábado, 26 de julho de 2008

Com a devida vénia, transcreve-se a entrevista concedida pelo então 1º Gr. 2044/71 José Augusto de Sousa Tavares ao portal jornal da região oeste “Oeste Online”, Edição de 27-04-2008



Trata-se de um relato interessante e ousado que revela a vivência dolorosa de um ex-combatente integrado no DFE 4, ao tempo em comissão de serviço na Guiné.
Algumas imprecisões constantes do texto, nomeadamente de carácter geográfico (já lá vão 4 décadas), não retiram força à narrativa que espelha o ambiente de “stress” e “sufoco” vividos pelos fuzileiros.

Caldas da Rainha
Francisco Gomes // Edição de 27-04-2008
Antigo fuzileiro quer promover encontro com camaradas que estiveram na Guiné
José Augusto Jesus Tavares tem 57 anos e nasceu em Laranjeira, Alvorninha, Caldas da Rainha. Grumete do Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 4 (DFE-4) na Guiné-Bissau, em 1973-1974, pretende contactar com os antigos camaradas para promover um almoço de confraternização.
“Gostava de os encontrar. A maior parte deles não os devo conhecer, porque já foi há muito tempo e alguns já faleceram”, manifesta.
José Tavares após o serviço militar regressou à Marinha Mercante, onde já trabalhava e esteve embarcado durante mais quinze anos, efectuando transportes marítimos para vários pontos do Mundo. Depois estabeleceu-se nas Caldas da Rainha, no ramo do comércio, fundando lojas de pronto-a-vestir e artigos de puericultura. Casado, tem três filhos, todos rapazes, com 30 anos (gémeos) e 23 anos. Tem dois netos, um com 9 anos e outro com 4 meses.

Hoje recorda os tempos de guerra e os sacrifícios que se faziam na altura em nome do patriotismo. Antes de cumprir serviço militar trabalhou três anos na Marinha Mercante. Foi para a Marinha em 1971 e mais tarde entrou como grumete no (DFE-4). “Sabia que a malta especializada, como era o meu caso, ia para o Ultramar. Foi o que aconteceu em 1973, tinha eu 23 anos. Tive a vantagem de já conhecer a Guiné, porque tinha ido lá carregar e descarregar material. Conhecia bem África e o ambiente que ali se vivia. Mas a guerra desenrolava-se no mato, nos portos não havia problemas”, relata.

Em Abril de 1973 foi como fuzileiro especial para a Guiné com a missão de render o DFE-8. “Fomos destacados para Ganturé, no Norte do território. E, mais tarde para o Chugué, no Sul do território. Era um deserto. Fomos nós que construímos o aquartelamento numa das margens do rio Cumbijã. Deram-nos bidões de combustível para cortarmos as tampas e com as chapas montarmos a estrutura lateral do quartel. A parte de cima era com chapa zincada. Fizemos também abrigos e valas para garantir a nossa segurança”, recorda.

“No norte (Ganturé / Bigene) a população local era nossa amiga e gostava de nós. É verdade que havia alguns brancos que exploravam os africanos, mas ajudámo-los em muita coisa. Se nos lavavam roupa nós pagávamos. Muitos viviam à nossa custa”, conta.

José Tavares descreve que “dividimo-nos em quatro secções - Alfa, Bravo, Charlie e Delta. Havia quem tivesse já cumprido mais comissões e era mais graduado. Lembro-me do Joaquim José Simões, de Ferreira do Alentejo, que era a terceira comissão que fazia e era um grande amigo. Às vezes imitava o Spínola, colocando o vidro do relógio num olho. Conhecíamo-nos mais pelos números do que pelos nomes de cada um. Havia o 2042, das Caldas da Rainha, que era o Abílio Pedro, com a alcunha de “Cavalinho”. Eu era o 2044/71”.

“Para tomar banho tínhamos quatro bidões em cima de um tronco de árvore, que eram enchidos com uma mangueira ligada a um motor que ia buscar a água aos poços. Era água fria, mas também com o calor de África não era preciso aquecer. Também não estávamos lá para fazer turismo. Íamos tentar ganhar a guerra e a nossa preocupação era fazer o acompanhamento de oficiais em deslocação à região”, sustenta.

“De quatro em quatro horas éramos atacados”
Um dia, o Comandante do Destacamento, 1º. Ten. Alves de Jesus, deu a informação de que Guidaje estava a ser ocupada pelo PAIGC - Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, que era o inimigo, e tinham de avançar urgentemente para prestar socorro. “Fomos cumprir a ordem e nem tivemos tempo de pensar no perigo que íamos enfrentar”, confessa José Tavares.

“Apesar de ser a minha primeira missão, eu já tinha experiência de armas, porque antes de irmos fizemos muitos exercícios em São Jacinto. A 8 de Maio fomos a caminho de Guidaje e passámos por uma zona onde no dia anterior uma coluna do Exército que ia abastecer o quartel foi alvo de uma emboscada do PAIGC. Só cheirava a carne assada. Faço ideia da malta que lá morreu. Lembro-me de um camarada que estava a socorrer outro e pisou uma mina anti-pessoal que lhe levou uma perna. Para o armamento e munições não serem utilizados pelo inimigo foram enviados os Fiat – aviões da Força Aérea – para bombardear a área e destruir o material de guerra que estava nas viaturas atacadas”, refere.

“Passámos ao lado e seguimos até ao quartel do Exército em Guidaje. Antes de chegarmos vimos dois pretos mortos no chão. Não tinham armas, só as cartucheiras na cintura. Fomos avisados para não mexermos nem sequer nos aproximarmos das pessoas mortas, porque a zona podia estar minada. Os abutres apareciam para comer a carne dos cadáveres. Era um cenário que agoniava”, garante o antigo fuzileiro.

“No quartel, próximo da fronteira com o Senegal, de quatro em quatro horas éramos atacados por mais de 60 morteiros e tínhamos de correr para os abrigos. Nunca vi coisa igual. Passámos dias muito difíceis debaixo de tiro. Morreu muita gente e já não havia condições para lá ficar. A alimentação escasseava porque não havia abastecimento. Um africano ia atravessar a parada do quartel e foi atingido por um morteiro. Os estilhaços entraram-lhe no corpo todo. Não morreu e foi internado na enfermaria. Quando já estava melhor foi para um abrigo subterrâneo, só que o PAIGC atirou uma granada perfurante – que não rebentava logo – e acabou por morrer lá dentro. Quando fomos ver, estava com as pernas em cima da cama e a cintura no chão. Era mais uma baixa de forma inglória”, afirma o caldense.

No dia 13 de Maio, estavam para sair para fazer o reconhecimento do local de onde vinham os ataques e um camarada do DFE 1 foi morto com o estilhaço de uma bomba que rebentou. Para uma partida honrosa para a eternidade exigiram uma urna para transportar o corpo e enviaram um helicóptero levá-la.
“Não morri porque não calhou”

O episódio mais dramático foi dias depois quando tiveram de fazer a rendição e regressar a Ganturé. Havia uma zona de clareira com 300 metros de largura, onde não havia mato, que tinham de atravessar. O PAIGC sabia que naquele dia havia uma coluna que partia de Ganturé e outra de Guidaje e que se cruzariam naquele local, e puseram-se à espera dos portugueses e espalharam minas por todo o lado.

“Os primeiros a chegar fomos nós – carros com passageiros africanos que queriam abandonar Guidaje e ir para sítios mais seguros, e com malta nossa, alguns dos quais feridos. A minha esquadra teve sorte, porque nos conseguimos enfiar no mato, só que ficámos uma hora debaixo de fogo. Eles utilizavam uma arma cuja munição estourava e desfazia-se em estilhaços, o que se tornava perigoso. “Vamos a eles que ainda não é desta que nos vão levar”, gritava, num apelo cheio de heroísmo, um oficial do destacamento, quando foi atingido nas costas”, narra.

“Éramos poucos e o oficial teve de chamar os Fiat para nos socorrerem, porque estávamos sujeitos a morrer ali, já que ficámos encurralados. O chefe da minha esquadra, o marinheiro Moura, mais experiente do que nós, disse-nos: “Oh pupilos, guardem uma munição para cada um, para o caso de não conseguirmos vencer nos matarmos, em vez de nos entregarmos”. Cada G-3 tinha 20 munições e trazíamos sete cartucheiras e um morteiro. Nunca tinha ouvido tal coisa, mas foi uma exclamação normal, porque sabíamos das atrocidades e do sofrimento que poderíamos ser alvo. Não ficámos a pensar, nem reagimos. Acho que se fosse preciso despachávamos todas as munições que tínhamos. Mas felizmente não foi preciso reservar uma para nós. Hoje penso que parecia um filme e não sei se o conseguiríamos fazer se tivéssemos de disparar contra nós próprios”, confidencia o ex-militar.

“Ouvimos as tropas do PAIGC a chamarem-nos “magala” porque pensavam que éramos do Exército. Não víamos o inimigo, mas eles também não nos conseguiam ver. Os tiros eram disparados às cegas e tínhamos de ficar agachados no chão para não sermos atingidos. Ouvíamos as balas a passarem. Até zuniam. Foi a pior altura pela qual passei. O PAIGC estava bem armado e utilizava mísseis para atacar os aviões. Alguns foram atingidos. Ficámos à cabeça do touro e tínhamo-nos de desenrascar e a solução foi recuar para Guidaje, assim como os outros nossos camaradas voltaram para o quartel de Ganturé. Voltámos a ser atacados e não tínhamos comunicações. Em Portugal, a família pensava que tinha morrido, porque se falava que a situação estava má e que tinha piorado. Na verdade, não morri porque não calhou”, manifesta.

“Fomos comendo o que havia – até pernas de rã e carne de crocodilo, e ali ficámos alguns dias até sermos abastecidos. Até penso que foi mentira quando a situação ficou mais sossegada”, desabafa.

Para além desta teve mais duas vezes a morte à frente dos olhos mas por acidente: “Uma vez foi no rio com botes. Levávamos a cartucheira e armas às costas. Eu costumava sempre andar com o motor. Fui pô-lo a trabalhar. Quando comecei a puxar o cordel o motor terá engatado e quando arrancou caí ao rio e por sorte não fui atingido pela hélice, senão retraçava-me todo. O Comandante Alves de Jesus já gritava: “Aquele já foi”. Mas afinal… não fui, não morri. De outra vez íamos do acampamento para o rio e os botes iam em cima de uma camioneta Mercedes. Tinha uma granada na G-3 e meti-a no porta-granadas, só que como não cabia a patilha de segurança, tinha de vir de fora. Eu vinha em cima da camioneta e ouvi dizer que havia uma mina anti-carro. Saltei da Mercedes para vê-la, só que no pulo a patilha da granada agarrou-se numa corda de um bote e partiu-se. Quando vi, pensei que ia morrer, porque era uma questão de segundos para rebentar. Mas não chegou a explodir”.
Francisco Gomes